Por Juliana Starosky, Psicóloga da Carreira | Criadora da Metodologia STAR para Marca Executiva, Reputação e Transição de C-Levels e Lideranças | Fundadora da Starosky Consultoria | Headhunter da Carreira®
Essa semana, em uma conversa com um executivo C-Level que estou assessorando, surgiu uma dúvida que considero muito comum entre profissionais seniores.
Ele havia recebido o contato de
um headhunter de uma grande consultoria de Executive Search, mas já conhecia
outra pessoa da mesma empresa. Então me perguntou se deveria marcar uma
conversa ou se poderia parecer estranho procurar outro consultor daquela consultoria.
Eu disse para marcar, é claro!
Conhecer um headhunter de uma
consultoria não significa ser conhecido pelos demais profissionais que
trabalham nela. E, quando falamos de Executive Search, esse detalhe importa
bastante, lembre sempre disso.
Eu já estive do outro lado da
mesa, trabalhei como headhunter antes de passar a atuar diretamente com
carreira, marca e reputação de executivos. Naquela cadeira, conheci muita
gente. Entrevistei profissionais excelentes, participei de mapeamentos,
conversei com candidatos que chegaram até as etapas finais de processos e
mantive contato com executivos de diferentes mercados.
Mas, existe uma coisa que quem
está do outro lado nem sempre percebe. O volume de pessoas que passa pela vida
profissional de um headhunter é enorme.
Além das entrevistas, existem os
projetos sendo conduzidos, novos mapeamentos, conversas com clientes,
referências, pesquisas de mercado, indicações e profissionais que procuram
espontaneamente as consultorias. A própria AESC, associação internacional de
Executive Search, define esse trabalho a partir da busca por executivos que
atendam a critérios bastante específicos definidos pela empresa contratante. A
associação também reforça a importância da construção de relacionamento com
executivos seniores dentro da atividade de pesquisa e Executive Search.
Por isso, quando você pensa “eu
já fui entrevistado por ele, certamente ele lembra de mim”, eu teria algum
cuidado com essa certeza.
Ele pode lembrar, mas também pode
não lembrar. E isso não significa que você não tenha sido relevante ou que a
conversa não tenha sido boa. Significa apenas que, depois de você, vieram
muitos outros profissionais, outros projetos e outros contextos.
Eu mesma vivi isso como
headhunter. Alguns profissionais permaneciam muito claros na minha memória
porque eu conseguia associá-los rapidamente a determinado tipo de negócio,
setor, experiência ou problema. Com outros, mesmo tendo uma carreira excelente,
essa associação era menos clara.
E aqui está, para mim, uma das
questões centrais quando falamos de relacionamento com headhunters. Não basta
conhecer pessoas. É preciso ajudá-las a entender por que deveriam lembrar de
você. Vejo esse problema com frequência entre CEOs, C-Levels e diretores que
chegam até mim.
São profissionais que passaram
vinte ou trinta anos trabalhando muito, entregando resultado, liderando
pessoas, resolvendo problemas dentro de empresas importantes e construindo
carreiras muito consistentes. Só que boa parte dessa energia ficou concentrada
dentro das empresas em que estavam.
Quando começam a olhar para o
mercado, percebem que construíram uma carreira forte, mas pouco relacionamento
fora dela.
Um C-Level que assessorei
reconheceu justamente isso. Depois de muitos anos de carreira consolidada, percebeu
que o seu networking havia se tornado uma fragilidade porque durante muito
tempo sua atenção esteve voltada quase exclusivamente para a empresa onde
trabalhava e poucos contatos fora.
Em outro atendimento, uma
executiva chegou a uma conclusão parecida. Ela me disse que demorou para
entender que, principalmente quando você começa a ocupar posições mais altas,
não é apenas a entrega que conta. A qualidade das relações que você construiu
ao longo da carreira também pesa.
Isso não significa substituir
competência por relacionamento, mas sim: entender que competência que ninguém
conhece tem alcance limitado. E, o maior erro é pagar por relacionamentos,
quando se busca uma transição de carreira.
É por isso que tenho certa
resistência quando networking é tratado como uma tarefa operacional ou como se
fosse preciso subir em um palco. Muitos executivos me dizem, “Juliana, eu não
sou de palco, não sou marketeiro”. Só que relacionamento não começa no palco.
Você faz isso todos os dias com sua esposa ou marido, seus filhos, amigos,
colegas de trabalho, clientes, pessoas que encontra pelo caminho. Networking,
no fim, é relação. O erro é transformar algo humano em uma obrigação
artificial.
Você não precisa colecionar
headhunters. Precisa construir relações com pessoas que façam sentido para a
sua carreira. E isso começa por uma pergunta anterior, que muitos profissionais
pulam.
- O que exatamente você quer que
o mercado associe ao seu nome?
- Se eu perguntar hoje para
alguém que conhece você qual problema de negócio você sabe resolver muito bem,
essa pessoa saberia responder?
- Se surgir uma busca por um CFO
para uma empresa passando por reorganização financeira, alguém lembraria de
você?
- Se uma empresa precisar de um
COO para transformação operacional, alguém faria essa associação?
- Se aparecer uma cadeira de CEO
para uma companhia em expansão, reestruturação ou mudança de modelo de negócio,
seu nome faria sentido na conversa?
É dessa memória que estou falando,
não de ser conhecido por ser conhecido.
Isso também explica por que eu
não aconselho um executivo a concentrar todo o relacionamento em uma única
pessoa dentro de uma consultoria ou empresa.
Grandes empresas de Executive
Search possuem consultores diferentes, carteiras diferentes, clientes
diferentes e especializações que podem mudar ao longo do tempo. A AESC descreve
o Executive Search como um trabalho feito sob mandato exclusivo do cliente e
voltado a uma necessidade específica de liderança. Ou seja, o headhunter está
olhando para aquilo que aquela empresa precisa naquele momento.
Você pode ter um excelente
relacionamento com uma pessoa e, ainda assim, uma busca muito aderente ao seu
perfil cair na mesa de outra.
Por isso, naquela conversa que
contei no começo, minha orientação foi simples: fale com ele!
Muitos executivos só procuram
headhunters ou começam a se relacionar com o mercado quando precisam deles. O
mesmo acontece com o posicionamento de marca, deixam para pensar em como querem
ser percebidos justamente quando já estão em transição. O problema é que
reputação não se constrói na urgência. Ela vem da forma como você se posiciona,
se relaciona e é lembrado ao longo da carreira.
Passam anos sem conversar com
ninguém e, quando acontece uma demissão ou quando decidem sair da empresa,
começam a reativar todos os contatos ao mesmo tempo.
A mensagem muda de tom na hora.
“Estou olhando o mercado.”
“Você tem alguma posição?”
“Posso compartilhar meu currículo?”
“Você faz job hunting?”
“Qual é a sua taxa de recolocação?”
É nesse momento que o
relacionamento deixa de ser relacionamento e passa a carregar urgência e a
ansiedade toma conta da razão. E, para um CEO ou C-Level, isso pesa ainda mais.
Boa parte das posições desse nível nem chega a ser anunciada publicamente, e
entre as vagas divulgadas ainda existe o problema das chamadas vagas fantasmas,
publicadas sem uma intenção real ou imediata de contratação. Por isso, esperar
a necessidade aparecer para começar a se movimentar costuma ser tarde demais.
Não existe nada errado em dizer
que você está disponível. O problema é quando essa é a única razão pela qual
aquela relação existe. Relacionamento profissional precisa começar antes da
necessidade.
Durante meus anos como
headhunter, vi profissionais extremamente competentes que tinham enorme
dificuldade para explicar o próprio valor.
Em um dos atendimentos que
conduzi este ano, relembrei justamente situações que vivi naquela época.
Profissionais muito fortes tecnicamente acabavam perdendo oportunidades para
outros com menos experiência, mas que conseguiam mostrar melhor o que haviam feito,
como pensavam e de que maneira poderiam contribuir com aquela empresa.
Eu não gosto de chamar isso de
“saber se vender”.
Para mim, marca pessoal não é
autopromoção.
É clareza.
Quanto mais sênior você se torna,
mais difícil pode ser explicar sua própria carreira porque você acumulou muita
coisa. Foram empresas, áreas, projetos, crises, mudanças, decisões, equipes,
erros, acertos, aquisições, resultados e anos de experiência.
Quando alguém pergunta “me fale
sobre você”, muitos executivos tentam colocar vinte anos em quinze minutos.
A pessoa que está ouvindo precisa
fazer um esforço enorme para descobrir qual é o fio que liga tudo aquilo.
Recentemente, uma executiva me
disse que havia feito tantas coisas ao longo da carreira que já não sabia
exatamente como definir quem era profissionalmente e onde poderia gerar mais
valor.
O que ela me disse, representa
muita gente que chega até mim. Não são profissionais sem repertório, mas justamente
o contrário. Eles têm repertório demais e precisam aprender a organizar tudo
isso para que o mercado consiga compreendê-los de forma clara sobre o que
querem hoje.
É aí que marca e relacionamento
se encontram.
Você pode conhecer vinte
headhunters de consultorias renomadas em Executive Search, mas se cada um tiver
uma leitura diferente sobre quem você é, existe um problema.
Da mesma forma, você pode ter um
LinkedIn impecável, mas, se não construiu relações ao longo da carreira, seu
perfil pode até ser visto, só não necessariamente será lembrado.
Você não precisa se relacionar
com um headhunter pensando no que ele pode fazer pela sua carreira hoje. O
ponto é outro, ele entende quem você é, o que você entrega e em que tipo de
situação deveria lembrar do seu nome?
É assim que trabalho com os
executivos que assessoro. Primeiro vem a clareza sobre quem é esse
profissional, o que quer e quais problemas sabe resolver. Depois, faz sentido
aproximá-lo das pessoas certas.
Se você já conhece alguém de uma
consultoria, ótimo. Mas não precisa ficar restrito a essa única relação.
Converse com outros profissionais quando houver contexto, mantenha proximidade,
tome cafés, compartilhe algo relevante e, quando puder, também ajude.
O que não faz sentido é aparecer
apenas quando precisar.
Uma carreira forte, sozinha, não
constrói uma reputação forte. O headhunter faz uma leitura ampla de você, da
sua experiência, comunicação, escuta, resultados e forma de se posicionar,
sempre considerando o que o cliente precisa naquele momento. Alguns serão mais
empáticos, outros mais objetivos, cada um com seu estilo, mas muitos podem ser
uma ponte importante entre você e oportunidades que nem sempre chegam ao
mercado.
Você não controla quando uma
posição executiva vai surgir, quem conduzirá a busca ou quais nomes entrarão no
primeiro mapeamento.
Mas pode cuidar para que, quando
essa conversa acontecer, o seu nome tenha significado.
Se uma busca muito aderente à sua carreira chegasse hoje à mesa de um headhunter que conhece você, ele saberia por que deveria lembrar do seu nome?
Quem sou
Sou Juliana Starosky, Psicóloga da Carreira | Criadora da Metodologia STAR para Marca Executiva, Reputação e Transição de C-Levels e Lideranças | Fundadora da Starosky Consultoria | Headhunter da Carreira®.
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Fontes
AESC - Professional Practice Standards e Candidate Bill of Rights, referências sobre a atuação de consultorias de Executive Search e a relação com executivos.
Casos citados - falas reais de CEOs, C-Levels e lideranças assessoradas pela Starosky Consultoria, preservadas de forma anônima.
Experiência profissional da autora - atuação em Executive Search e, posteriormente, em carreira, marca e reputação executiva.
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